O discurso mais manjado e sem embasamento, foi de um jornalista antigo, que aparentava pelos cabelos brancos, já ter vivido tudo na profissão. Para encerrar o falatório choramingado, decretou: “O mar não está para peixe”, referindo-se ao mercado de trabalho dos jornalistas. Ao final das outras falas – igualmente desmotivadoras – não perdi a oportunidade de contestar a afirmação.
Apesar de não achar fácil a disputa por uma boa colocação no mercado de trabalho, não acredito que “o mar não está para peixe”. Se for necessário culpar alguém, não é ao “mar” que devemos atribuir as responsabilidades e, sim, ao “peixe”. Questionei se, na verdade, não seria “o peixe que não está para o mar”, ou seja, será que as dezenas de faculdades de jornalismo estão formando profissionais capazes de disputar boas vagas no mercado? A resposta foi tão evasiva que nem me lembro do conteúdo.
Há sete semestres vivendo dentro de uma faculdade de jornalismo e mantendo contato com estudantes de outros locais, tenho cada vez mais certeza de que é sim, o peixe que não está sendo bem preparado. Não é mandando ler livros que datam de antes do nosso nascimento e ensinam como distribuir os “toques” numa lauda de rádio, que a Universidade vai formar um profissional preparado. O ensino prático é necessário. Um jornalista formado apenas na teoria só terá a capacidade de falar sobre o jornalismo, mas nunca fazê-lo.
Já que a maioria das faculdades não oferece ferramentas ideais para a prática da profissão, é no estágio que o estudante busca essa qualificação. Neste ponto, concentra-se um grande debate. Também no ano passado, travei um diálogo sobre o tema com o representante dos jornalistas no Rio Grande do Sul. Nas entrelinhas, pareceu-me que o Sindicato da categoria não morre de amores pelos estágios. Num primeiro momento estranhei aquela posição, já que um bom estágio poderia representar um profissional mais qualificado. Hoje, conhecendo um pouco mais da realidade dos estagiários (principalmente da capital do Estado), entendo o porquê do sentimento. Algumas empresas veem no estagiário de jornalismo uma mão-de-obra barata e facilmente substituível, quando, na verdade, deveriam ver um futuro profissional que poderá contribuir para a empresa. Outros motivos levam-me a dar credibilidade para a posição desgostosa do Sindicato quanto ao assunto: o estagiário é contratado para cumprir seis horas, mas fica oito, nove e o salário, batizado de “bolsa auxílio”, pode nem passar de R$ 250.
Como sempre morei e trabalhei no interior do Estado, pensava que eram nas pequenas cidades, distantes da fiscalização do Ministério do Trabalho, que se concentravam as irregularidades. Depois de comparar a minha situação como estagiário de uma empresa em Bagé, na região da Campanha, com a de alguns amigos em Porto Alegre, percebi que sou um privilegiado. No meu caso, a “bolsa auxilio” tem valor justo, a carga horária é cumprida e sou treinado para ser um bom profissional. Já meus amigos, em grandes empresas de Porto Alegre, vivem a situação que descrevi no final do parágrafo anterior. Inaceitável para a capital do Estado, cidade sede do Sindicato da categoria e constantemente fiscalizada pelo Ministério do Trabalho. Infelizmente, terei de terminar esse texto como o “jornalista antigo” que citei no início, usando o ditado popular do espeto da casa do ferreiro.
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