“Então tu és de Bagé? Terra de macho! Terra do Médici!” é uma resposta comum a qualquer cidadão dessa cidade, após confirmar a terra natal. Sobre a primeira afirmação, não cabe aqui tentar desmenti-la. É sobre a segunda – “terra do Médici” – que concentram-se as próximas linhas.
Um ponto de referência se faz necessário em muitas ocasiões. Quando buscamos auto-afirmação, principalmente. Usar o nome do ditador para engrandecer a cidade é a saída de muitos bajeenses quando necessitam apresentar-se a um forasteiro. Mas, sendo Médici tudo que apresentaremos a seguir, será que esse recurso acrescenta algo à cidade?
1968 foi um ano sem adjetivos na história política do Brasil. Enquanto o País assistia à criação do Ato Institucional número 5, consolidando-se a ditadura, Bagé, por sua vez, vivia um carnaval fora de época. “Houve muita festa, passeatas, carreatas, na verdade.” lembra Sandra Silva, ex-articulista de um jornal local, sobre o dia em que o general Emílio Garrastazu Médici foi confirmado no poder. “Ali, onde foi a Prefeitura, na General Osório, Médici foi ovacionado por uma multidão. Não havia bajeense que não se sentisse orgulhoso. Quem não é hipócrita há de lembrar bem”.
Começou ali, com a festa dos bajeenses, o período mais violento da ditadura brasileira, conhecido como “anos de chumbo”. Também foi nesta época que se registrou o maior crescimento da economia tupiniquim, com investimentos como a rodovia Transamazôniza (nunca concluída) e a Hidrelétrica de Itaipu (hoje motivo de indigestões diplomáticas entre Brasil e Paraguai). A frente dess
e governo estava o bajeense Emílio Garrastazú Médici, neto de um combatente maragato e filho de uma uruguaia. Ao assumir o poder, o terceiro general-presidente estava disposto a combater a esquerda utilizando os métodos mais violentos possíveis. O Ato Institucional número 5 foi plenamente aplicado na sua gestão. Os jornais, revistas, rádio e televisão sofreram violenta censura, impedindo que a população fosse informada do que estava acontecendo. Com tanta repressão, os movimentos de esquerda optaram por fazer frente ao General. Armaram-se e foram à luta. O governo Médici se transformaria também num dos períodos mais esquizofrênicos na vida da nação: oficialmente tudo ia às mil maravilhas - o Brasil era o "país grande" que ninguém segurava, o "país que vai pra frente", também era tempo do "milagre econômico" e do famoso conselho "ame-o ou deixe-o". Enquanto isso, nos porões da ditadura, havia tortura, repressão e morte.
Sobre os “anos de chumbo”, a ex-repórter e cronista Sandra fala com cautela. Faz questão de observar para que se analise Médici como um cidadão formado em bases militares e estrutura rígida da família no início do século XX. Mas outros personagens da época que também tiveram formação militar “rígida” não pensavam (e não pensam) da mesma forma. Como exemplo, o atual deputado federal Fernando Gabeira.
Sandra acredita que muitas das atrocidades cometidas durante a ditadura – hoje conhecidas – não eram de conhecimento do General.
“Certamente muitas vezes não teve o correto cumprimento de suas orientações porque impossível em um país da grandeza territorial do Brasil, mesmo em regime fechado, controlar as mentes dos devassos. Mas por isso não pode ser culpado, apesar de nossa tendência a culpar os mandatários por todos os descalabros que lhes ficam abaixo”, defende Sandra.
Mas o "milagre brasileiro" – menina dos olhos do Governo Médici - durou pouco, pois não se baseava nas próprias forças econômicas, mas numa situação favorável. Com o aumento do preço do petróleo no mercado internacional, a economia brasileira sofreu grande impacto. A inflação começou a subir e a dívida externa elevou-se de forma crescente e assustadora.
Teve início, então, uma longa e amarga crise econômica. O governo militar foi perdendo um de seus principais argumentos para sustentar-se no poder. A ditadura não garantia o desenvolvimento, e as oposições foram lentamente se reorganizando para exigir a volta da democracia.
Depois que Médici deixou o poder, Sandra chegou a freqüentar a casa do general e também encontrá-lo em ambientes informais. “Certa vez, quando estava em D. Pedrito lançando um livro, e Médici já não era mais presidente, encontrei o casal num singelo restaurante, onde almoçamos. Estava com D. Sila e o filho recentemente falecido. Quem olhasse o casal jamais diria que aquele homem tinha governando o país. Calmo, sereno, simples. Tinha vindo ver suas propriedades. Sem ostentação. Era um homem de convicções na democracia e nas liberdades”, lembra.
Usar o nome do mais violento e cruel ditador da história do Brasil, mesmo com o argumento da contemporização, dificilmente será visto como positivo. Mesmo que nem todos os fatos ocorridos dentro do Governo Médici tenham sido ordenados por ele, a imagem do bajeense estará sempre ligada ao autoritarismo, à tortura e à repressão. Ainda hoje, quase 40 anos depois, é impossível não lembrar de tudo isso ao passar em frente ao ginásio Militão ou à Usina da cidade de Candiota, que levam o nome Médici.