domingo, 3 de fevereiro de 2008

Encanto pelo vinil

Ouvir música já foi um ritual bem mais interessante em outras épocas. Hoje basta um tolo clique e a canção é executada. Para mudar, outro clique e pronto. A tecnologia torna vazios e secos nossos atos corriqueiros. Não estou alheio a essa forma grosseira de ouvir canções, já que é fácil encontrar qualquer obra prima na internet, baixar e ouvir, mas procuro cultivar hábitos antigos e emocionantes. O disco de vinil, por exemplo, é uma das minhas paixões.

Não há facilidade que substitua o prazer de comprar um vinil, enorme, brilhante, sentir o cheiro de papel velho que exala da capa rabiscada, amassada e suja. Tirar o LP da capa, passar um lenço para tirar o pó, encaixá-lo no tocador e posicionar a agulha, com todo o cuidado, procurando o ponto certo. Depois, ouvir aquele ruído de quando a agulha passa entre os intervalos das faixas e, aos poucos, o som dos instrumentos vai sobrepondo o chiado. O áudio rouco, de qualidade infinitamente inferior ao MP3 e ao CD, é apaixonante. A paixão que move Durval, personagem do filme “Durval Discos”, um proprietário de loja que pára no tempo e se recusa a vender CD`s.

Cuido dos meus discos como se fossem filhos ou animais de estimação. Eles tomam sol e ar fresco, para não ruírem com o tempo. São limpos e guardados meticulosamente organizados, ano a ano, artista a artista. Embaixo as coletâneas de Bossa Nova, depois os vários do Chico e do Caetano, e acima a grande coleção de Rita Lee.

Em alguns chamam atenção as dedicatórias, com datas distantes, e vocabulário interessante. “De eu pra vosmicê”, escrito em caneta azul e data de 79. Algum namorado apaixonado conquistou quem sabe a sua esposa com esse recadinho. Há uma história de vida, certamente, atrás desses rabiscos. Assim como há histórias em todos os discos dos sebos que freqüento. Esqueço as horas e admiro um a um, imaginando os caminhos que tal disco percorreu até ser descartado nessa loja.

O mundo já foi bem mais interessante. Ouvir música já foi instigante, hoje é banalidade presente no carro ou pendurada no pescoço, em qualquer lugar e com uma facilidade que intriga. Sou nostálgico, sim!

2 comentário(s):

Anônimo disse...

Wow...realmente escutar LPs foi um h�bito perdido por muitos devido as facilidade do mundo t�cnol�gico....mas gra�as as boas pessoas donas de Sebos,isto n�o est� perdido.Nos proporcionam n�o s� uma volta ao tempo como tamb�m descobertas ''novas'',muitas vezes orgasticas.

Alexandre

Niela Bittencourt disse...

É...Realmente um vinil tem o seu charme...

Mas essa onda tecnológica acabou com nossos pequenos prazeres...

A máquina analógica, por exemplo...Nada, nem mesmo a praticidade da máquina digital, é capaz de acabra com o encanto da revelação e cópia de um filme em preto e branco, mas...No mundo em que vivemos hoje não há tempo para estes prazeres, principalmente no jornalismo, que tudo é para ontem...

Mas é bom cultivar estes pequenos hábitos...

Beijo!

coisas do baú